Todos sabem que o tabaco é uma planta americana. Parece que os hespanhoes não o acharam nas grandes ilhas da América , isto é , em S. Domingos, Cuba, e Jamaica , onde se estabeleceram , no principio dos seus descubrimentos naquela parte do mundo. Foi pelos annos de 1520 que elles encontraram esta planta no Yucatán, província da terra firme. Deram-lhe o nome de tabaco, porque havia muito, e de multo bom crescimento, nos arredores da povoação de Tabasco.
Pourchot diz que os portugueses foram os primeiros que trouxeram á Europa o tabaco da ilha deste nome , urna das Antilhas. Mas é sem duvida que ella só foi povoada e cultivada em 1632 por urna companhia hollandeza ou belga, que ali fundou urna colonia chamada a Nova-Ovacra, quasi um seculo depois de ser o tabaco conhecido na Europa. O tabaco era usado em Portugal e em Hespanba muitos annos antes de o introduzirem em Franca. João Nicót, embaixador de Francisco 1.°, na corte d’el rei D. Sebastião, levou a Franca esta planta em 1560, e a apresentou a Catherina de Medicis e ao Grão-Prior. Aquella princesa e este fidalgo lhe deram cada um delles o seu nome, para a fazer de moda, ou porque nella achassem alguma virtude particular, ou para se tornarem mais celebres, introduzindo uma cousa nova naquelle paiz, e por isso , ora lhe chamavam a herva da rainha, ora a herva do Grão-Prior; о que não obstou a que lhe ficasse о nome de Nicociana, que lhe haviam posto, por gratidão, algumas outras pessoas a quem João Nicót a déra.
O cardeal de Sancta-Cruz, que fôra Nuncio em Portugal, e Nicolau Tornaboni, que o havia sido em França, voltando das suas nunciaturas, levaram o tabaco a Italia, onde primeiramente lhe pozeram о nome de herva sancta, o qual lhe tinham dado os hespanhoes, por causa das virtudes especiaes, que, segundo diziam, nelle haviam achado. É de crer, contudo, que antes desta epocha já o tabaco fosse conhecido naquelle paiz, por via dos proprios hespanhoes, que senhoreavam Napóle , mas talvez o seu uso não se tivesse vulgarisado; porque os italianos recebiam mal tudo o que lhes vinha d’Hespanha, salvo o ouro e a prata.
Não foi a principio o tabaco bem recebido por toda a gente. Esta planta , como um pomo de discordia, accenden vivissima guerra entre os médicos, que nesta occasião não se esqueceram do seu antiquissimo direito de fallar em tudo. Apesar de muitos delles nunca terem visto o tabaco, começaram a discorrer largamente sobre as suas propriedades e virtudes, como se fosse cousa conhecidissima desde o tempo de Hippocrates ou Galeno. Diziam uns que era frio, outros que era quente. Ferviam as receitas sobre o modo de o preparar e de usar delle. Apontavam as vezes e a quantidade que se devia tomar: faziam-se com elle curas espantosas, já se sabe, em doentes que accreditavam em todas as virtudes maravilhosas que lhe attribuiam. Chegou a tal auge esta mania que estiveram a ponto de abandonar todos os outros medicamentos para ficar o tabaco sendo o remedio universal, e isto teria acontecido se os médicos estivessem entre si concordes a tal respeito.
Mas apesar dos tão consideraveis proveitos que se tiravam do tabaco, segundo se cria, esta planta não deixou de ser attacada por adversarios poderosissimos. Os que não gostavam de novidades não podiam levar á paciencia que se rejeitassem como inuteis todos os medicamentos antigos, para se reduzirem as drogas de botica a uma só, o tabaco. Pozeram, por isso, em duvida o bem que delle se dizia, e não lhes faltavam boas razões para provar, que de outras causas nasciam as curas que se attribuiam ao tabaco.
Todavia o uso desta planta não deixou de se propagar mais depressa do que se esperava. Da America se estendeu até as mais remotas partes da India, e ao mesmo Japaão. Passou dos moscovitas aos tártaros orientaes; inundou toda a África, Asia-menor, Grecia, Hungria, Polonia, Alemanha, e mais reinos do Norte. Nunca houve cousa tão universalmente recebida, posto que por toda a parte achasse contradicções, embaraces, e opposição, que parecía deverem esmaga-la á nascenca; porque não se creia que tão só os escriptores a guerrearam com a penna: tambem os mais poderosos monarchas se declaraгаm contra a introducção desta planta.
O grão-duque de Moscovia Miguel Federoviti, vendo que, por (duas ou tres vezes, a capital dos seus estados estivera a ponto de ser abrazada por descuido dos fumantes, que adormeciam com o cachimbo na boca, e pegavam fogo as casas, que, sendo de madeira e muito juntas, podiam arder todas, prohibiu a entrada e uso do tabaco em todos os seus estados, primeiro com pena de açoutes, depois com a de nariz cortado, e finalmente com a pena de morte.
Amurath 4º imperador dos turcos seguiu este exemplo, e prohibiu o tabaco em toda a extensão dos seus dominios. O schah sophi da Persia fez o mesmo. Mas com o correr dos tempos estas prohibições esqueceram, e hoje é justamente destes paizes onde se gasta mais avultada porção de tabaco. Na Europa contentaram-se em pôr direitos exorbitantes neste genero de mercadoria, e com mandar publicar livros contra o uso delle. Jacques Stuard, rei de Inglaterra, publicou um tractado, escripto por elle proprio, em que mostrava a inutilidade desta planta. Christiane 4.°, rei de Dinamarca, mandou escrever outro por Siman Paulo seu medico : em Franca sustentaram-se theses publicas contra o uso do tabaco, nas quaes o medico que presidia ás conclusões esteve constantemente tomando pitadas, enquanto provou evidentemente os horrorosos dannos que do tabaco se seguiam.
Mas, não obstante esta guerra cruel, cada vez se tomava, fumava, e mascava mais tabaco. Quebradas já todas as outras armas recorreram os inimigos delle aos raios da egreja. Urbano 8.° publicou uma bulla, em que excomungava todos os que tomassem tabaco dentro das egrejas. Os seus successores foram, porém, mais negligentes; e, apesar da bulla, continuaram os que gostavam de tabaco a toma-lo nos templos: últimamente Clemente 11.° prohibiu o seu uso, só na egreja de S. Pedro de Roma; e para os que contraviessem a este preceito guardou a excomunhão de Urbano 8º. Assim o tabaco victorioso em toda a parte, salvo no recinto de S. Pedro, estabeleceu para a perpetuidade o seu imperio. —Extrahido do P. Labal
in O Panorama, 19 de Janeiro de 1839
