XIX


ULTIMAS NOTICIAS DA CALIFORNIA
Julho 2, 2008, 9:31 am
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Eis o extracto da carta de um capitão de navio de Nantes dirigida a negociantes daquelle porto.
«Pela vossa carta de 10 de Julho vejo que não estais ao corrente do que se passa na Califórnia. Ordenaes a venda do navio, mas não por menos de 150,00 francos. Dir-vos-hei que actualmente se vendem aqui navios novos e até da primeira viagem de 1,000 a 1,200 toneladas, pelo preço de 4,000 a 5,000 piastras. Vi vender por 1,000 piastras uma baleeira de 600 toneladas, aparelhada para a pesca, e nova inteiramente, que só aqui veio largar passageiros, com tenção de seguir viagem para o noroeste da América.

Estes navios são alados para a terra onde vem servir de armazens.

De vinte embarcações, de bandeiras diversas, surtas agora na bahia, dois terços não tem fôlego vivo a bordo, e a outra terça parte apenas conserva alguns homens da sua equipagem. Logo que fundeam, a marinhagem quasi que não se dá ao trabalho de ferrar o panno, tanta é a pressa de desertar. E os marujos não desertam para as minas: vão navegar em barcos de cabotagem pelos rios, o que lhes é muito mais rendoso.

Posto que haja grande abundância de oiro, não se pense que se extrae com pouco trabalho e sem riscos. Ao contrario; de cada dezena de trabalhadores das minas, pelo menos morre metade: as febres e dysenterias fazem extraordinária devastação; e não póde deixar de ser assim, estando aqueles homens mettidos quasi sempre na agua para a lavagem do mineral, dormindo sobre a dura terra, sem abrigo, expostos aos nevoeiros cerrados, frequentes nesta região, accresce-lhes o abuso das bebidas espirituosas, e o uso da carne salgada, seu alimento quasi único.

Só os recem-chegados vão para as minas: depois de lá passarem alguns mezes, voltam enfermos, exhaustos pelas fadigas; então buscam na cidade trabalho que nunca falta. Toda a gente acha em que se occupe; e por isso as obras feitas há coisa de um anno parecerão fabulosas: so americanos nortistas são capazes de fazer tanto. Eu esperava achar uma pinhota de barracas de lona ou de madeira, assentadas ao acaso. Enganei-me. S. Francisco é uma cidade de 600,000 almas, bem arruada, com as cazas em linha recta; para o que se tem posto em pratica trabalhos de atterros e nivelamentos de toda a espécie. Lojinhas, e armazéns assaz pequenos arrendam-se por 600, 800, 1,000 piastras ao mez; os terrenos vendem-se a 90 piastras o pé quadrado.

É por esta rasão que vemos indivíduos que para cá vieram o anno passado sem anda ou com muito pouco de seu, desfructarem hoje um rendimento de 5 a 6 mil piastras por mez. A origem de todas estas fortunas provém dos terrenos. A especulação em mercadorias enriquece poucos: estão empilhadas na rua fazendas e géneros de toda a casta, expostos ás chuvas e ao sol, sem que ninguém lhe importe com isso, e até ás vezes ignora-se o dono dellas: são coisas incomprehensiveis, é preciso presenciar os factos para formar cabal idéa do que se passa nesta terra. Parece que nos achamos no meio de uma grandessíssima feira, onde todos andam em continuo gyro sem cuidarem mais que nos seus negócios.

A bulha dos carros e dos martellos, o borborinho da gente é capaz de ensurdecer; ninguém se entende com o ruído. Não obstante o immenso movimento vive-se em tranquilidade; reina a maior segurança pessoal no paiz; não se commetem roubos nem assassínios; póde transitar-se a toda a hora sem receio. Houve, é certo, vários crimes no principio da exploração; mas os anglo-americanos com a sua justiça expedita enforcaram os delinquentes, e d’ahi por diante desapareceram os delictos.

Além da cidade de S. Francisco, há quatro que se estão edificando mais perto das minas; avultam tanto as obras que já há falta de operários; os carpinteiros ganham por dia 12 piastras. Por tanto se continuar a achar-se o metal aurífero por mais dois annos, o que não offerece duvida, esta região será destinada a um futuro incalculável.

Há poucos dias que as fazendas sobre tudo de França, melhoram de preço. Os vinhos estão agora muito caros, ao contrario das aguardentes, que tem pouco valor: mas em anda se póde fazer firmesa, porque é grande e rápida a fluctuação de preços. A farinha que ainda não há 15 dias se vendia a rasão de 5 piastras, hoje está por 16 e 18 ditas; quem trouxesse agora do Chili algumas porções deste género fazia muito bom negocio.

Os pagamentos fazem-se todos á vista, e pela máxima parte em oiro em pó: só a alfandega exige moeda cunhada, que é rara. O preço corrente de uma onça de oiro regula por 16 piastras.

In Revista Universal Lisbonense, 14 de Fevereiro de 1850.



Incêndio
Maio 12, 2008, 4:27 pm
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Porto, 1 de Dezembro

No dia 28 do passado exhalaram os rebeldes a sua indignação pela vergonhosa sopreza que em seu campo fizeram as nossas tropas; e procuraram vingar a injuria recebida á força de bombas e ballas, disparadas contra a cidade. O convento de S. domingos foi incendiado por uma das bombas; e é de notar que uma grande parte do dia e da noite, em quanto os rebeldes viram pelo fumo e clarão das labaredas que o incêndio augmentava, não cessaram as suas baterias de atirar contra o edifício que ardia, a fim de poderem melhor empregar seus tiros na gente que suppunham empregada em apagar as chammas. Continuar a ler



O jornalismo no ano 2000
Março 14, 2008, 5:50 pm
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Considerando no que é hoje, observando as suas tendências, pode conjecturar-se, aproximadamente, o que virá a ser. Um curioso aprofundou esta questão e lisonjeia-se de ter descoberto, com plausibilidade, as condições em que há-de achar-se o jornalismo no ano 2000.
Há fome e sede de notícias: todos querem saber tudo – o que pode e deve saber-se e o que não pode nem deve saber-se -, a máquina reproduz em minutos o pensamento, para ser transmitido a todos os pontos da terra, e já não é só a máquina para estampar o jornal, é também a máquina para compor; inventou-se o tipógrafo-máquina e deve esperar-se, portanto, que venha a idear-se o redactor-máquina.
O jornal é hoje diário e o mais é que chega a reproduzir a mesma folha em duas ou três edições, com alguns aditamentos ou notícias. Isto será atraso e fossilismo no ano 2000. Daqui a 50 anos, os jornais publicarão uma folha, inteiramente nova, de hora a hora, e, daqui a 100 anos, de minuto a minuto, de instante a instante. Será um moto-contínuo e ainda não satisfará a curiosidade pública. Cada cidadão fará um jornal: o artigo de fundo constará sempre das notícias da sua vida pública e íntima.
Como o jornalismo assume tais proporções, talvez se pense que faltará papel, porque é necessário advertir que de cada jornal se tirarão, de minuto a minuto, milhares de folhas; mas a isto há-de ocorrer-se com facilidade, porque, assim como o jornal é instantâneo, instantânea há-de ser a leitura; e o papel vai, minutos depois de lido, para a fábrica, a fim de se reproduzir […] apenas o superfino será reservado para os brindes aos assinantes, os quais, ao cabo da sua assinatura, já possuirão uma biblioteca de 525 000 volumes, pois tantos são os minutos que tem o ano; já se vê que a cada folha acompanhará um brinde.
O telégrafo eléctrico generalizar-se-á, cada cidadão terá o seu telégrafo em correspondência mútua, de maneira que em um minuto se saberá o que se passa nos pontos mais afastados e, em Lisboa, se poderá saber, de instante a instante, até à vida caseira do mais boçal esquimó; com o que os povos hão-de folgar, deleitar-se e instruir-se.
O jornal caseiro será alheio à política; para esta haverá jornais especialíssimos e os seus redactores nem serão amigos, nem distintos, quando não forem da mesma parcialidade;quando, porém, comungarem na mesma pia (também em 2000 se darão destas), então serão inteligências robustas, caracteres provados… no que forem.
Mas como é de crer que no ano 2000 já exista a paz universal e a união entre todos os homens, acabará a política, os governos governarão sempre conforme… à nossa vontade, portanto, serão inúteis os jornais políticos; não haverá, pois, nem turibulários, nem oposicionistas; todos serão amigos e distintíssimos cavalheiros, unidos no pensamento comum de amarem a sua pátria. Assim seja.

in Jornal do Comércio, de 25-02-1868