XIX


Relação da Viagem Aerostática feita nesta Cidade a 25 de Junho de 1820, por Mr. Robertson, filho
Maio 30, 2009, 4:35 pm
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Porto, 28/Junho/1820, Relação da Viagem Aerostática feita nesta Cidade a 25 de Junho de 1820, por Mr. Robertson, filho

“Tendo o Professor Robertson pai, recebido em Lisboa as mais lisonjeiras provas de geral satisfação em todas as suas experiências, que tiveram um feliz sucesso, julgou que não devia deixar Portugal sem oferecer à cidade do Porto o raro espectáculo de uma viagem aerostática. Todas as pessoas eruditas, que se achavam na mesma cidade empenhar-se-ão em favorecer uma subscrição para este objecto: anunciando-se esta experiência para o domingo 25 de Junho, e sendo destinada para celebrar-se a festa do nome de S.M. Fidelíssima Rei do Reino Unido foi desempenhada felizmente no dia referido na bela Quinta do Prado, que pertence ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo do Porto.

A chuva, que desde as dez horas até ao meio dia caiu repetidas vezes, fez recear que a experiência fosse diferida; mas ao depois, serenando a atmosfera, Mr. Robertson principiou às três horas o trabalho necessário para a formação do gás hidrogénio, e às 5 horas a máquina, inteiramente cheia esperava o Aeronauta.

O Professor Robertson tinha prometido a sua sobrinha, a esposa do jovem Malabar, o prazer de a deixar elevar-se, estando a barquinha presa por uma corda; por isso antes da partida de Mr. Eugénio Robertson ela subiu a certa altura. Esta jovem, desejando há muito tempo fazer uma viagem aerostática, tinha escondido um canivete, e uma carta no seu lenço, e intentava cortar as prisões, que a retinham: apenas o seu intento foi descoberto por Mr. Eugénio Robertson, que se assustou, e não queria ceder o seu lugar a pessoa alguma, lançou mão rapidamente da corda principal e conduziu o balão até ao recinto. Então esta Dama cheia de coragem saiu da barquinha e Mr. Eugénio Robertson, substituindo o seu lugar, sustentando-se em pé, e tendo na mão a bandeira portuguesa elevou-se majestosamente às 5 horas e meia bradando: ”Viva El-Rei; Viva D. João VI”; e, lançando várias peças de versos em honra da Nação Portuguesa, análogas a tão brilhante circunstância.

Elevando-se o balão, o quadro que se desenvolvia debaixo dos pés do aeronauta tornava-se mais interessante; pois que o Douro, correndo ao longe, já parecia esconder-se por entre as montanhas, já descobrir-se de momentos a momentos. O viajante por uma parte via o Porto como num pequeno quadro; mas sem perder a menor circunstância, por outra parte divisava ao longe verdes florestas, deliciosos jardins, e campos cercados de parreiras que atraíam e encantavam seus olhos, e qual uma serpente, que dá tortuosas voltas para entrar na sua cova, assim o Rio Ave parecia dirigir-se para o mar.

O objecto mais tocante, que o aeronauta observou nesta viagem, foi a vista de mar, que brilhava debaixo de seus pés, e lhe parecia incendiado por todos os lados, efeito da reflexão do Sol que se ocultava no horizonte, e que sem dúvida foi a causa do viajante não sentir na altura a que se remontou o frio activo, que de ordinário se experimenta.

Mr. Eugénio Robertson viu certa poeira, que se levantava da terra, e julgando serem cavaleiros, que vinham ao seu encontro, tomou o óculo para melhor observar; mas era simplesmente o declive de alguns montes de terra argilosa, feridos pelos raios do sol que já declinava.

O Aeronauta, depois de ter subido em meia hora a uma grande altura, e achando-se por cima de uma floresta, escolheu um sítio sem árvores, e apto para findar a sua viagem; ele o conseguiu descendo tranquilamente perto da freguesia de Ferreiro um lugar além do Rio Ave, distante uma légua de Vila do Conde, e 5 léguas do Porto. As primeiras pessoas que apareceram no momento em que tocou a terra o nosso viajante foram dois caçadores, que presenciaram as duas ascensões, que fez em Lisboa; depois chegou a cavalo o Ajudante das Milícias de Vila do Conde, Lima, que tendo descoberto o aeróstato da varanda da casa do seu Tenente Coronel se dirigiu com ele para o sitio, em que lhes parecia cair o balão.

O Viajante recebeu dos mesmos Senhores todos os socorros possíveis, e os maiores testemunhos de estima; e, depois de ter pernoitado em casa do Ilustríssimo Major das Ordenanças em Bagunte, para onde o conduziu seu Filho o Ilustríssimo Tenente Coronel António Luiz, entrou no Porto no dia 26 quase ao meio dia, recebendo em todos os lugares por onde passou imensas provas de grande satisfação, e os aplausos que sempre costuma excitar em toda a parte esta rara e maravilhosa experiência. Reinou por toda a parte a maior ordem e harmonia em tão imenso concurso, efeito das sábias ordens que foram dadas pelo Ilustríssimo Desembargador Encarregado da Polícia, e pelo Ilustríssimo e Excelentíssimo Tenente General, Governador das Armas. – A tranquilidade, o contentamento, e a boa ordem que resplandeciam por toda a parte, e esta experiência feita em tais circunstâncias, parecia terem tornado este espectáculo uma verdadeira festa. No mesmo dia da viagem o público à noite deu provas da afeição que tinha ao jovem aeronauta, mostrando apenas acabou o teatro a sua impaciência, e o desejo de tornar a vê-lo; porém, não lhe foi possível voltar na referida noite ao mesmo teatro, como tencionava, para cumprimentar a tão respeitável reunião, e mostrar-lhe a sua eterna gratidão.

NOTA: Mr. Eugénio Robertson pela observação do barómetro avaliou a sua altura num quarto de légua no momento da maior elevação.”

in Gazeta de Lisboa n.º 161, 10/Julho/1820



O Sino Mergulhador – Invenção Portugueza
Julho 31, 2008, 9:34 pm
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O Engenheiro hydraulico, que felizmente concluiu no Rio Douro a memoravel obra de extinguir o cachão de S. Salvador da Pesqueira, a 8 de Setembro de Setembro de 1786, na presença de S. Magestade e de toda a Real familia e de varios Ministros Estrangeiros, e de alguns fidalgos, e de uma immensa multidão de povo, exercitou defronte do Terreiro do Paço a operação de descer ao fundo do mar dentro de uma machina hydraulica, que lhe deixava as mãos e os pés em liberdade de fazer qualquer exercicio, e debaixo d’agua cantou com todo o socego varios hynnos e psalmos: o que o Principe nosso Senhor estando no seu escaler, por cima do sitio onde o dicto engenheiro se achava submergido, ouviu; como também as respostas que este deu ás perguntas que se lhe fizeram de cima d’agua. Daqui se vê não ser novo o invento de uma tal machina hydraulica communicada á convenção de París, segundo se annunciou no supplemento á Gazeta Nº2, pois que ha tanto tempo se viu praticado neste paiz.
Gazeta de Lisboa, 2º Supplemento á Gazeta Nº3. Janeiro 27 de 1795

Supplemento a que se allude

O cidadão Schimit mestre de instrumentos de musica deu ultimamente parte á convenção de ter feito em meccanica dois instrumentos uteis á humanidade. Um é uma machina hydraulica calculada para mergulhar na agua a qualquer profundidade: o mergulhador póde serrar, martelar, fazer buracos, segurar cordas, e ajuntar quaesquer cousas que se achem no fundo, soffer a compressão seja d’agua ou d’ar, podendo ao mesmo tempo fallar com quem estiver na superficie d’agua. 1º Supplemento á Gazeta. Janeiro 16 de 1795

in O Panorama, 29 de Setembro de 1838



Navegação Aéria
Março 21, 2008, 11:25 pm
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Texto não dispon�vel
in Revista Universal Lisbonense, 1843

Tendo-nos sido possivel fazer gravar a aéria carruagem de vapor, que os nossos leitores estão vendo, dirigimo-nos ao Ex.mo Sr. visconde de Vilarinho; rogando-lhe nos désse uma explicação d’ella, e juntactamente a sua opinião a tal respeito. Temos a satisfação de publicar a interessante carta, com que S. Exª nos honrou.

Illmº Sr. Antonio Feliciano de Castilho
Vi com a maior satisfação e interesse o Atlas de sabado 1º de abril corrente nº881, V. 18 que V. me enviou, em que vem estampada a nova máchina de voar intitulada – The Aerial Steam Carriage – Aéria Carruagem de Vapor: o sistema, em que se funda a estabilidade séria, é por certo uma das melhores invenções do espirito humano; é não sómente possivel, mas certissimo e infallivel. Não quero dizer com isto que a dicta máchina esteja inteiramente perfeita, e que não tenha ainda muitas coisas que precisam de diversos melhoramentos; mas qual é a invenção dos homens que apparece logo perfeita? Nenhuma por certo; muitos seculos decorreram primeiro que chegasemos a ter as máchinas de vapor no estado em que as vemos, e posto que tão uteis sejam nem por isso deixam ellas de ter ainda muitos defeitos. a navegação, que levou muitos annos a aperfeiçoar, e que tem custado milhões e milhões de vidas, ainda é susceptivel de grandes melhoramentos: assim acontece a todas as artes, e a todas as sciencias; muito nos temos adiantado, muitos descobrimentos se tem feito, e muitos mais ainda se farão; porque ninguem sabe aonde estará o limite d’elles. Continuar a ler



Novo telegrapho
Março 3, 2008, 7:45 pm
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Mr. Kieninger acaba de inventar, na Austria, um novo telegrapho. Vem este a ser um telegrapho acustico, ou de sons, consistindo em tubo da fórma de um porta-voz, de seis pés e cinco pollegadas de comprido, que em 11 segundos e um decimo leva o som á distancia de 12:000 pés. Fizeram-se experiencias em Vienna, com este instrumento, e deram excellente resultado. O governo tem assentado em emprega-lo no exercito, para dar ordens ás tropas, quando estiverem derramadas por um terreno muito extenso.

in O Panorama, 7 de Abril de 1838



Machina militar de vapor
Fevereiro 22, 2008, 12:34 pm
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Мr. Peakins inventou ha alguns annos a artilharia de vapor, o qual invento ainda que nao progrediu, talvez de futuro venha a ser de grande importancia: mas o que neste genero ha mais notavel é certa machina inventada em 1834 por um ingenheiro inglez.

É o efleito deste machinismo de guerra tão terrivel que seu auctor Ihe deu o nome de pacificador; porque nao baveria quem se attrevesse a affrontar-se com elle. É destinado a romper os quadrados de infantaria n’uma batalha campal, e a decidir promptamente a sorte dos combatentes. A tal nova machina de guerra compoe-se de um aro de caixao, feito de chapas de ferro fundido de meia pollegada de grossura. Outro aro de caixâo mais pequeno, feito da mesma materia, vae mettido dentro, mediando, por todos os lados, entre ambos, o vão de seis ou oito pollegadas. Este vao é cheio com tóros de madeira verde.
Uma machina de vapor, construida segundo o methodo das que se usam para mover as carruagens nos caminhos de ferro, vae mettida no centro com as suas rodas, e fica resguardada da metralha, e até das balas de artilharia pelo involtorio externo, visto que a experiencia tem mostrado que os tóros de páu verde da grossura de cinco ou seis pollegadas bastam para embaraçar as ballas de calibre 6 ou 8. O centro de gravidade , estabelecido debaixo do eixo das rodas, impede que a machina tombe. Affirma o inventor que tudo isto nao pesará mais do que uma peca de 12 com o seu reparo. Estas machinas de guerra serviriam para se trazerem na retaguarda dos exercitos, e applicarem-se em caso de necessidade. Arrojando-as contra os quadrados de infantería, iría atraz dellas um grosso de cavallaria, para acabar de dispersar o quadrado roto pela machina.

Tal invento, se algum dia se aperfeiçoar, talvez produza grandes mudanças na arte da guerra actual ; e nao deixaria de dar grande superioridade á potencia militar que primeiro della fizesse uso.

In O Panorama, 17 de Fevereiro de 1838



Machina de cozer
Fevereiro 17, 2008, 11:26 pm
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books.jpgUm pobre alfaiate francez, natural de Amblepuis (Rhodano) por nome Timonier, foi quem primeiro concebeu a idea de uma machina de coser. Por espaço de alguns annos estudou elle o meio de resolver praticamente о importantissimo problema que se propozera, mas só em 1830, parecendo-lhe ter obtido resultado satisfactorio, sollicitou e obteve o respectivo privilegio de invenção.

Ou fosse pelas circunstancias políticas da epocha, ou porque a machina de Timonier não satisfizesse na realidade a todas as exigencias requeridas, o que é certo é que o seu uso se nao generalisou, e quasi que a machina e o inventor caíram inteiramente era esquecimento.

Em 1834 apresentou-se, porém, Isaac Singer, de Watertown (Estados Unidos) a requerer privilegio para uma nova machina de coser que inventara; esta foi mais feliz, porque leve logo favoravel acolhimento na Europa e America.

Esta machina é muito simples; compoe-se de um quadro de ferro, apoiado sobre quatro pés; uma peca, tambem de ferro, recurvada, sustenta o fuso e o mecanismo da agulha vertical. Debaixo d’esta ha uma chapa movel, que ajusta perfeitamente ao quadro ou mesa. Esta chapa encobre o syslema da agulha circular collocada interiormente. À machina pode ser movida manualmente, com pedal, ou a vapor. Exécuta o trabalho com admiravel rapidez e perfeição, fazendo quinhentos pontos por minuto, termo medio.

Grover e Backer aperfeicoaram estas machinas. Posto que nao defiram muito na forma exterior das de Singer, é certo que se obtem com ellas trabalho mais perfeito e rápido, asseverando-se que se podem com ella execular mil e quinhentos pontos por minuto!

A gravura representa uma machina d’este ultimo sistema.

in Archivo Pittoresco, 1858