XIX


Machina militar de vapor
Fevereiro 22, 2008, 12:34 pm
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Мr. Peakins inventou ha alguns annos a artilharia de vapor, o qual invento ainda que nao progrediu, talvez de futuro venha a ser de grande importancia: mas o que neste genero ha mais notavel é certa machina inventada em 1834 por um ingenheiro inglez.

É o efleito deste machinismo de guerra tão terrivel que seu auctor Ihe deu o nome de pacificador; porque nao baveria quem se attrevesse a affrontar-se com elle. É destinado a romper os quadrados de infantaria n’uma batalha campal, e a decidir promptamente a sorte dos combatentes. A tal nova machina de guerra compoe-se de um aro de caixao, feito de chapas de ferro fundido de meia pollegada de grossura. Outro aro de caixâo mais pequeno, feito da mesma materia, vae mettido dentro, mediando, por todos os lados, entre ambos, o vão de seis ou oito pollegadas. Este vao é cheio com tóros de madeira verde.
Uma machina de vapor, construida segundo o methodo das que se usam para mover as carruagens nos caminhos de ferro, vae mettida no centro com as suas rodas, e fica resguardada da metralha, e até das balas de artilharia pelo involtorio externo, visto que a experiencia tem mostrado que os tóros de páu verde da grossura de cinco ou seis pollegadas bastam para embaraçar as ballas de calibre 6 ou 8. O centro de gravidade , estabelecido debaixo do eixo das rodas, impede que a machina tombe. Affirma o inventor que tudo isto nao pesará mais do que uma peca de 12 com o seu reparo. Estas machinas de guerra serviriam para se trazerem na retaguarda dos exercitos, e applicarem-se em caso de necessidade. Arrojando-as contra os quadrados de infantería, iría atraz dellas um grosso de cavallaria, para acabar de dispersar o quadrado roto pela machina.

Tal invento, se algum dia se aperfeiçoar, talvez produza grandes mudanças na arte da guerra actual ; e nao deixaria de dar grande superioridade á potencia militar que primeiro della fizesse uso.

In O Panorama, 17 de Fevereiro de 1838



ALTERAÇÕES DO NIVEL DE AGUA NO BALTICO
Fevereiro 20, 2008, 10:34 pm
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No tempo de Swedenberg, que escreveu em 1715, observou-se que o nível do Báltico, e do oceano germânico declinava. No meado do século passado houve na Suécia uma acalorada discussão acerca da realidade e causas deste phenomeno. Hellant de Tornea, certificado por seu pae, velho barqueiro, e além disso testemunha ocular por suas experiencias, legou os seus bens á academia das sciencias com a condição de que ella prosseguiria na investigação do phenomeno; a somma era pequena, mas o legado correspondente ao intento. Alguns membros da academia collocaram signaes em rochedos avulsos situados em bahias abrigadas, memorando os dias em que os marcos foram postos, e as alturas que tinham então acima d’agua.

O Báltico facilita muito estas experiencias, porque alli não há marés, nem circumstancias, que influam sobre a sua superfície, excepto uma desegual pressão da atmosphera sobre o seu nível e o do oceano; isto produz uma variação curiosamente exemplificada no lago Malar, junto de Stockolmo. Assim como o barometro sobre ou desce, o Baltico corre para o lago, e o lago para o báltico. Comtudo a variação, que resulta da desegualdade da pressão atmospherica é insignificante. Em sítios abrigados crescem musgos e lichens á borda d’agua, e assim formam um registo natural do nível da mesma. Sobre esta linha de vegetação se poseram signaes, que estão agora em muitos logares dois pés acima do nível d’agua.

Nos annos de 1820 a 1821, Brunerona visitou as antigas marcas, mediu a altura de cada uma acima da linha de vegetação, ficou novas marcas, e fez seu relatório á academia. Com este relatório se publicou um appendix por Halestrom, comprehendendo as medições, que elle e outros fizeram na costa de Bothnia. Destes documentos resulta; 1º que ao longo da costa do Báltico a agua está mais baixa relativamente á terra do que estava; 2º que a variação não é uniforme. Segue-se daqui que ou o mar e a terra tem ambos soffrido alteração de nível, ou a terra somente; a mudança de nivel de mar só não explicaria o phenomeno.

Há vinte e seis annos que Mr. Von Buch declarou a sua convicção de que a superfície da Suécia vagarosamente se levantou desde Frederickshall até Abo, e accrescentou que a elevação provavelmente se estendeu á Rússia. É tão forte a presumpção da verdade desta doutrina, que exige que semelhantes experiencias e observações se instituam, e continuem, por uma serie d’annos em outros países, no intuito de determinar se em mais algumas partes tem paulatinamente acontecido alguma alteração de nível.

A Associação Britannica para o progresso das sciencias já tomou isto a seu cargo, destinando uma commissão para indagar a questão relativamente ás costas da Graã-Bretanha e da Irlanda; e é de esperar que se proceda a semelhantes investigações nas costas da França e da Itália.

in O Panorama, 7 de Abril de 1838



Machina de cozer
Fevereiro 17, 2008, 11:26 pm
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books.jpgUm pobre alfaiate francez, natural de Amblepuis (Rhodano) por nome Timonier, foi quem primeiro concebeu a idea de uma machina de coser. Por espaço de alguns annos estudou elle o meio de resolver praticamente о importantissimo problema que se propozera, mas só em 1830, parecendo-lhe ter obtido resultado satisfactorio, sollicitou e obteve o respectivo privilegio de invenção.

Ou fosse pelas circunstancias políticas da epocha, ou porque a machina de Timonier não satisfizesse na realidade a todas as exigencias requeridas, o que é certo é que o seu uso se nao generalisou, e quasi que a machina e o inventor caíram inteiramente era esquecimento.

Em 1834 apresentou-se, porém, Isaac Singer, de Watertown (Estados Unidos) a requerer privilegio para uma nova machina de coser que inventara; esta foi mais feliz, porque leve logo favoravel acolhimento na Europa e America.

Esta machina é muito simples; compoe-se de um quadro de ferro, apoiado sobre quatro pés; uma peca, tambem de ferro, recurvada, sustenta o fuso e o mecanismo da agulha vertical. Debaixo d’esta ha uma chapa movel, que ajusta perfeitamente ao quadro ou mesa. Esta chapa encobre o syslema da agulha circular collocada interiormente. À machina pode ser movida manualmente, com pedal, ou a vapor. Exécuta o trabalho com admiravel rapidez e perfeição, fazendo quinhentos pontos por minuto, termo medio.

Grover e Backer aperfeicoaram estas machinas. Posto que nao defiram muito na forma exterior das de Singer, é certo que se obtem com ellas trabalho mais perfeito e rápido, asseverando-se que se podem com ella execular mil e quinhentos pontos por minuto!

A gravura representa uma machina d’este ultimo sistema.

in Archivo Pittoresco, 1858



História do Tabaco
Fevereiro 15, 2008, 9:47 pm
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Todos sabem que o tabaco é uma planta americana. Parece que os hespanhoes não o acharam nas grandes ilhas da América , isto é , em S. Domingos, Cuba, e Jamaica , onde se estabeleceram , no principio dos seus descubrimentos naquela parte do mundo. Foi pelos annos de 1520 que elles encontraram esta planta no Yucatán, província da terra firme. Deram-lhe o nome de tabaco, porque havia muito, e de multo bom crescimento, nos arredores da povoação de Tabasco.

Pourchot diz que os portugueses foram os primeiros que trouxeram á Europa o tabaco da ilha deste nome , urna das Antilhas. Mas é sem duvida que ella só foi povoada e cultivada em 1632 por urna companhia hollandeza ou belga, que ali fundou urna colonia chamada a Nova-Ovacra, quasi um seculo depois de ser o tabaco conhecido na Europa. O tabaco era usado em Portugal e em Hespanba muitos annos antes de o introduzirem em Franca. João Nicót, embaixador de Francisco 1.°, na corte d’el rei D. Sebastião, levou a Franca esta planta em 1560, e a apresentou a Catherina de Medicis e ao Grão-Prior. Aquella princesa e este fidalgo lhe deram cada um delles o seu nome, para a fazer de moda, ou porque nella achassem alguma virtude particular, ou para se tornarem mais celebres, introduzindo uma cousa nova naquelle paiz, e por isso , ora lhe chamavam a herva da rainha, ora a herva do Grão-Prior; о que não obstou a que lhe ficasse о nome de Nicociana, que lhe haviam posto, por gratidão, algumas outras pessoas a quem João Nicót a déra.

O cardeal de Sancta-Cruz, que fôra Nuncio em Portugal, e Nicolau Tornaboni, que o havia sido em França, voltando das suas nunciaturas, levaram o tabaco a Italia, onde primeiramente lhe pozeram о nome de herva sancta, o qual lhe tinham dado os hespanhoes, por causa das virtudes especiaes, que, segundo diziam, nelle haviam achado. É de crer, contudo, que antes desta epocha já o tabaco fosse conhecido naquelle paiz, por via dos proprios hespanhoes, que senhoreavam Napóle , mas talvez o seu uso não se tivesse vulgarisado; porque os italianos recebiam mal tudo o que lhes vinha d’Hespanha, salvo o ouro e a prata.

Não foi a principio o tabaco bem recebido por toda a gente. Esta planta , como um pomo de discordia, accenden vivissima guerra entre os médicos, que nesta occasião não se esqueceram do seu antiquissimo direito de fallar em tudo. Apesar de muitos delles nunca terem visto o tabaco, começaram a discorrer largamente sobre as suas propriedades e virtudes, como se fosse cousa conhecidissima desde o tempo de Hippocrates ou Galeno. Diziam uns que era frio, outros que era quente. Ferviam as receitas sobre o modo de o preparar e de usar delle. Apontavam as vezes e a quantidade que se devia tomar: faziam-se com elle curas espantosas, já se sabe, em doentes que accreditavam em todas as virtudes maravilhosas que lhe attribuiam. Chegou a tal auge esta mania que estiveram a ponto de abandonar todos os outros medicamentos para ficar o tabaco sendo o remedio universal, e isto teria acontecido se os médicos estivessem entre si concordes a tal respeito.

Mas apesar dos tão consideraveis proveitos que se tiravam do tabaco, segundo se cria, esta planta não deixou de ser attacada por adversarios poderosissimos. Os que não gostavam de novidades não podiam levar á paciencia que se rejeitassem como inuteis todos os medicamentos antigos, para se reduzirem as drogas de botica a uma só, o tabaco. Pozeram, por isso, em duvida o bem que delle se dizia, e não lhes faltavam boas razões para provar, que de outras causas nasciam as curas que se attribuiam ao tabaco.

Todavia o uso desta planta não deixou de se propagar mais depressa do que se esperava. Da America se estendeu até as mais remotas partes da India, e ao mesmo Japaão. Passou dos moscovitas aos tártaros orientaes; inundou toda a África, Asia-menor, Grecia, Hungria, Polonia, Alemanha, e mais reinos do Norte. Nunca houve cousa tão universalmente recebida, posto que por toda a parte achasse contradicções, embaraces, e opposição, que parecía deverem esmaga-la á nascenca; porque não se creia que tão só os escriptores a guerrearam com a penna: tambem os mais poderosos monarchas se declaraгаm contra a introducção desta planta.

O grão-duque de Moscovia Miguel Federoviti, vendo que, por (duas ou tres vezes, a capital dos seus estados estivera a ponto de ser abrazada por descuido dos fumantes, que adormeciam com o cachimbo na boca, e pegavam fogo as casas, que, sendo de madeira e muito juntas, podiam arder todas, prohibiu a entrada e uso do tabaco em todos os seus estados, primeiro com pena de açoutes, depois com a de nariz cortado, e finalmente com a pena de morte.

Amurath 4º imperador dos turcos seguiu este exemplo, e prohibiu o tabaco em toda a extensão dos seus dominios. O schah sophi da Persia fez o mesmo. Mas com o correr dos tempos estas prohibições esqueceram, e hoje é justamente destes paizes onde se gasta mais avultada porção de tabaco. Na Europa contentaram-se em pôr direitos exorbitantes neste genero de mercadoria, e com mandar publicar livros contra o uso delle. Jacques Stuard, rei de Inglaterra, publicou um tractado, escripto por elle proprio, em que mostrava a inutilidade desta planta. Christiane 4.°, rei de Dinamarca, mandou escrever outro por Siman Paulo seu medico : em Franca sustentaram-se theses publicas contra o uso do tabaco, nas quaes o medico que presidia ás conclusões esteve constantemente tomando pitadas, enquanto provou evidentemente os horrorosos dannos que do tabaco se seguiam.

Mas, não obstante esta guerra cruel, cada vez se tomava, fumava, e mascava mais tabaco. Quebradas já todas as outras armas recorreram os inimigos delle aos raios da egreja. Urbano 8.° publicou uma bulla, em que excomungava todos os que tomassem tabaco dentro das egrejas. Os seus successores foram, porém, mais negligentes; e, apesar da bulla, continuaram os que gostavam de tabaco a toma-lo nos templos: últimamente Clemente 11.° prohibiu o seu uso, só na egreja de S. Pedro de Roma; e para os que contraviessem a este preceito guardou a excomunhão de Urbano 8º. Assim o tabaco victorioso em toda a parte, salvo no recinto de S. Pedro, estabeleceu para a perpetuidade o seu imperio. —Extrahido do P. Labal

in O Panorama, 19 de Janeiro de 1839